sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

É tudo na base do caução

Todos nós sabemos que o mundo é movido a dinheiro, todos gostam de ter dinheiro em mãos, para gastar, guardar ou até mesmo só para se sentir “seguro”. Na China, não é nada diferente, os chineses têm a necessidade de sentir que estão com dinheiro a todo momento, nem que seja só temporário.

Quando alugamos um imóvel no Brasil, naturalmente pagamos caução para evitar prejuízo por parte do locatário, tá, isso aí todo mundo entende, mas e se fosse cobrado caução todas as vezes que você alugar um filme, alugar uma peça de roupa ou até caução de alguns tipos de serviço. Sim, é isso mesmo, não é entrada, não é parcela, é caução mesmo!


Os chineses não têm muito costume de ir à praia mas em alguns lugares existem alguns guarda-sóis e bancos para as pessoas sentarem e descansarem na areia. Detalhe: são pagos.

Um belo dia, meu pai levou alguns amigos brasileiros para conhecerem uma praia na região onde morávamos, era na verdade uma lagoa com ondinhas, até porque onde morávamos não era região litorânea. Chegando lá, não haviam muitas pessoas, depois de andar um pouco resolveram se sentar, mas onde? Se perguntaram. Pouco tempo depois avistaram algumas cadeiras de praia e um guarda sol, quando se aproximaram, havia uma mulher, provavelmente a “Dona” das cadeiras, ela ficava ali o dia inteiro só alugando as cadeiras para os turistas. O preço era por hora e por pessoa. Depois de acertado os valores ela pediu 80RMB de caução das cadeiras. Meu pai, indignado falou: ” Você acha que vou roubar suas cadeiras daqui? Vou sair levando tudo enquanto você fica olhando?!” A mulher não sabia o que dizer, a final, ela só queria sentir o dinheiro em mãos. Fazer o que!?



Para quem não lembra, no post “Alugando um imóvel na China” eu falei sobre 
aluguei e como eles funcionam na China.


TUDO precisa ser pago na hora da compra ou de preferência antecipado, não existe isso de pagar fiado ou pagar quando puder. Então da próxima vez que você quiser usufruir de algo ou alugar alguma coisa na China, já separa uma parte do dinheiro para a caução.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Só na China - Parte III

É moda na China

As amigas andam bem juntinhas, mas são só amigas

O mesmo serve para os homens


Repare na mulher de máscara, ela deve estar no máximo com um resfriado


Economia de fralda, facilita na hora de "usar o banheiro"


No interior, as pessoas usam roupas mais tradicionais



É comum descansar assim
Descansando enquanto o ônibus não vem
É assim que se carrega filhos

Dica para os pais





(Todas as fotos foram tiradas com nossa câmera)
Para "Só na China - Parte I" clique aqui e "Só na China - Parte II" clique aqui.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Desmistificando alguns fatos

Os chineses não comem cachorro toda hora, não é igual frango ou outro tipo de carne, a carne de cachorro é um bom prato para o inverno pois é uma carne quente, é um prato diferente e especial, as vezes até bem mais caro que carne comum.

Os chineses não comem besouros, cobras e escorpiões sempre, como muitos imaginam. Para falar a verdade, quem mais come é estrangeiro para tirar uma foto e dizer que experimentou (existem feiras próprias para isto). Em 15 anos, vi umas 3 vezes os chineses comerem essas coisas em suas refeições. (Algumas regiões podem ser diferentes.)


A maioria dos chineses NÃO são budistas, poucos são. Grande parte deles não segue nenhuma religião e considera o partido (comunista) acima de tudo.

Sushi e Yakisoba não são pratos chineses, e sim japoneses.


São poucos os chineses que sabem artes marciais, da mesma forma que, são poucos os brasileiros que sabem capoeira.



Os chineses estão usando bicicleta menos e menos a cada dia. 17 anos atrás, quando viajei para algumas cidades do sul da China, haviam milhares de bicicletas na rua e poucos carros, hoje, a maioria das pessoas que andam de bicicleta são ciclistas profissionais ou pessoas mais humildes. O veículo de duas rodas mais encontrado das ruas são motos, (à gasolina ou elétricas).

Anos atrás

A imagem que muitos têm da China, de pessoas com chapéus de palha é de 200 anos atrás. Hoje em dia, isso só existe em pouquíssimos lugares em áreas rurais. E deixou de ser um símbolo da China.

Não são todos os produtos chineses que são vagabundos, isto vai depender de onde você comprar. Na China existe a frase: “O seu produto vale o que você paga”. Se comprar em lojas oficiais ou de renome irá sim, encontrar produtos de qualidade e com preço bom mas não pela bagatela que alguns querem pagar.

O chá verde não é amargo e não faz mal para saúde, como alguns acreditam. O “verde” do chá está mais no nome do que na cor do próprio, ao prepara-lo, a erva não fica mergulhada na água para que ela fique escura e com cheiro forte. O correto é deixar por poucos instantes e logo tirar, assim o chá é suave e leve. 



A roupa tradicional chinesa, conhecida como “Qi Pao”, não é usada no dia a dia. Hoje, ela é mais usada em festas, eventos ou casamentos, mas ainda é muito vendida.








quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma vez estrangeiro, para sempre estrangeiro

Quando um estrangeiro chega pela primeira vez em um novo país, é óbvio que ele sabe onde é sua terra natal. É o lugar de onde você saiu. É o lugar onde você cresceu, foi para a escola, teve uma educação, descobriu as curiosidades da vida, fez seus melhores amigos e se relacionou com pessoas que você considera importantes.

Mas, quando você vive no exterior por muito tempo, algo estranho acontece.
Você não sente mais que sua pátria é sua “casa”. Quando você "vai para casa", algumas das mesmas pessoas e lugares estão lá, mas a vida continuou e você não fez parte dela. Quando você volta nas férias ou só para renovar as forças em seu país, você não pode simplesmente continuar de onde você largou. Você é uma visita. Uma pessoa de fora. Um convidado sem papel permanente. Seus amigos mais próximos fizeram novos amigos. Metade das pessoas de sua igreja apenas te conhecem como um item na lista de pedidos de oração. Algumas novas tecnologias, gírias, ou tendência culturais se tornaram comuns, exceto para você.

No país onde você foi morar você disse coisas como: "No meu país ...". Mas poucas pessoas locais se identificam com a sua história. Eles ouvem educadamente, mas você sabe que eles realmente não entendem. Mas tudo bem. Você se consola e pensa: "As pessoas do meu país iriam entender."



Mas, curiosamente, essas pessoas do seu país que você tinha certeza que entenderiam .... bem, eles não entendem. Agora que você está em casa, você está cheio de experiências e histórias do lugar que se tornou sua segunda casa. Você diz coisas como: "Na China ...", ou “nos EUA......” Mas, é claro, a história que você vai contar sobre suas experiências fora também serão difíceis para eles se identificarem.  Você vai falar e no final vai receber um olhar vazio dos ouvintes, as vezes ouve até um “isso é estranho”, Depois do seu conto pitoresco, as pessoas voltam a falar de futebol, ou sobre política nacional, ou qualquer outra coisa que você não tenha pensado muito nos últimos anos. Não é que eles não gostem de você. Eles gostam e eles estão contentes você está finalmente em "casa". Mas as pessoas simplesmente não podem se relacionar com suas experiências "lá fora" no país com o nome engraçado cujo povo tem nomes ainda mais engraçado (e impronunciáveis).

Quando você volta para o Brasil de férias as pessoas te perguntam: "Não é ótimo estar de volta?!" E você pensa: "Sim, mais ou menos." Agora que você já comeu algumas de suas comidas favoritas e visitou alguns velhos amigos, não há mais muito o que fazer. Você começa a sentir saudade do país onde você morou e que você aprendeu a amar, aqueles amigos, aquelas comidas (pelo menos algumas) e o seu estilo de vida.
Sua pátria não é mais sua casa e tristemente, o outro país também não é. Sua casa são os dois lugares, mas ao mesmo tempo, não é lugar nenhum.

Não importa onde você estiver, sempre sentirá saudade do outro país que deixou para trás.

Você para sempre estará preso entre dois mundos. Não podendo mais se identificar com as pessoas que ficaram para trás, mas ao mesmo tempo, nunca podem realmente se identificar com as pessoas do outro país onde você morou.


Mas tudo bem. Existem outros viajantes nesta estrada.


Fonte: http://www.dahlfred.com/index.php/blogs/gleanings-from-the-field/747-why-missionaries-can-never-go-home-again

O conflito da liberdade

O que é liberdade? É o direito de escolher? É o direito de se expressar? É o direito de protestar? É o direito de se sentir seguro? É o direito de poder usufruir do que é seu?

A liberdade é relativa. Às vezes para ter o direito de escolher, você perde o direito de reclamar. Para poder ter segurança, você perde o direito de opinar.

Você se considera livre no Brasil? Um país onde a qualquer momento e lugar você pode ser assaltado, um lugar onde se depender da saúde pública muitos morrem, o povo reclama da corrupção e nada é feito. Será que vale a pena ter voz se ela não é ouvida?

Na China, realmente não tínhamos acesso à muitos sites da internet, um dia podíamos entrar no google, e no outro não. Quando o youtube foi bloqueado, foi um baque para nós, pouco tempo depois o facebook também havia sido bloqueado e nosso contato com o mundo de fora se reduzia a cada dia. Nossas conversas no Skype eram monitoradas e toda vez qeu tocávamos em algum assunto mais delicado o Skype caía, você pode até dizer que é coincidência, mas 20 vezes seguidas?! O mesmo acontecia com nossas ligações telefônicas.

Não podíamos dar opinião sobre qualquer assunto a qualquer momento na sala de aula. Tínhamos que assinar papeis que diziam que não iriamos fazer coisas ilegais, e por coisas ilegais digo atividades religiosas, pequenos protestos, formar grupos por alguma razão que pudesse ser prejudicial, ir contra regulamentação da faculdade. Quando as férias ou feriados se aproximavam, tínhamos que entregar um documento informando a escola onde estaríamos e quando voltaríamos. Os dormitórios das universidades eram fiscalizados em horários aleatórios e os alunos tinham que seguir os horários e regulamentos exagerados de cada lugar.

Alguns podem considerar isso um absurdo, um brasileiro pode até dizer que acha um exagero. Mas porque será que as coisas funcionam assim?

Para alguns, liberdade é poder sair às 2 horas da manhã e voltar andando para casa sem nenhum perigo; Poder andar com milhares de reais (no caso RBM) na bolsa que nada irá acontecer; Poder resolver fazer uma viagem de uma hora para a outra e simplesmente partir; Poder ter pessoas que vão te orientar a cada passo na escola ao invés de passar pelo famoso trote; É poder fazer amigos só porque querem ser seus amigos e não pelo seu dinheiro. Na China, essa é a liberdade.

Outros preferem ter a liberdade de postar o que bem quiserem no facebook; Poder falar mal do presidente e ir às ruas protestar; Correr atrás de seus direitos; Votar em quem preferirem.


Será que muitos trocariam acesso à um site por mais segurança? Trocariam o direito de votar por saúde digna? O direito de protestar por educação de qualidade para todos? A opinião própria por paz? A liberdade por igualdade? Quem sabe....


Comemorando o Papai Noel

Dia 25 de dezembro, natal, é o dia que muitos comemoram o nascimento de Jesus, nesta data, as famílias se reúnem, deixam de lado seus problemas e apreciam um momento agradável com familiares e amigos. O natal é, pelo menos tradicionalmente, uma lembrança do nascimento de Jesus, que veio com um propósito de salvar a humanidade. Naturalmente, é uma comemoração cristã.

Na China, o natal existe, mas não o natal com o significado original. Ele passou a ser considerado um evento “ocidental” e hoje, é a festa do Papai Noel.



Em 1997, quando me mudei para a China, tudo era muito tradicional, na época de natal não existia muita coisa, os estrangeiros comemoravam em suas casas e no dia seguinte tudo voltava ao normal. Porém, a China viu uma grande oportunidade comercial e pouco depois o natal virou moda. Onde andávamos víamos o Papai Noel, cartazes com a foto dele, promoções no dia deste feriado “ocidental”, a final, ninguém quer ficar de fora. Lembro-me de uma vez ter perguntado uma colega se ela sabia o porquê comemorávamos este dia, e ela respondeu sem cogitar: “É a festa do Papai Noel”.

Ao longo dos anos, as ruas começaram a ser decoradas e enfeitadas mais e mais, as músicas de Papai Noel foram sendo tocadas com mais frequência, mas nada disso foi suficiente para que esta data passasse a ser feriado.


Como todos sabem, a maioria dos enfeites e decorações de natal são produzidas na China, acima de 90%. Quando chega final de outubro as lojas de feiras começam a vender árvores de natal, bolas, enfeites, elas não perdem para a 25 de Março, porém não vendem nada “religioso”.

Nos anos de 2008 e 2009, com a crise mundial, muitos países não puderam comprar o que estava previsto e sobrou muitos produtos, naqueles anos, muitos chineses aproveitaram para comprar seus enfeites de natal já que estavam muito baratos. Desde então, a tradição vem se espalhando, e hoje, já existem apresentações, festinhas em escolas para comemorar o Papai Noel e alguns grupos costumam se presentear, afinal, todos querem uma oportunidade para ganhar presentes.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Censura na China - Parte I

A implacável censura chinesa não poupa nem a inocência infantil. Era um dia comum quando a professora de uma escola local pediu para que os alunos escrevessem uma carta para alguém. Poderiam escrever sobre o que quisessem e para quem quisessem. Um menino de 9 anos, na sua inocência, resolveu escrever para o presidente chinês Xi Jin Ping explicando seu ponto de vista sobre as naves espaciais e a vida na lua.



Chegou em casa e mostrou à mãe. Ela achou curiosa a carta e os pais logo enviaram uma foto do texto para alguns amigos online. Em pouco tempo a carta se popularizou. A razão disso foi o que no final da carta, para descontrair um pouco, o garoto recomenda que o presidente chinês perca peso, embora assinale que não precisa “ficar tão magro quanto [o presidente americano Barack] Obama”, mas que podia ter como modelo o presidente russo, Vladimir Putin.

Pouco tempo depois, esse conteúdo foi censurado nas redes chinesas e está bloqueado. A que ponto chegou o controle do governo?! Se um garoto de 9 anos comentar sobre o peso do presidente já é considerado uma grande ofensa e ameaça, imagina qualquer outra opinião ou comentário da população. Por isso, a liberdade de expressão não existe.



Desde criança, os alunos são ensinados na escola a nunca ofender ou questionar autoridade, existiam textos sobre o comunismo e o Mao Tse Tung que os alunos tinham que decorar, as escolas ensinavam como o comunismo é bom e que todos os países querem isso mas infelizmente não conseguem (palavras da boca da minha professora da segunda série). É feita uma lavagem cerebral e confesso que, mesmo sendo brasileira, não sei de onde saiu a ideia do garoto de dar uma opinião sobre o presidente, já que na China eles não têm exemplos de tais ações.

Lembro me de uma vez que um chinês estava me explicando como na época do Mao Tse Tung as coisas eram mais rígidas. O sobrenome “Mao”, se escreve “”, e esse mesmo caracter pode ser usado em conjunto com outro para formar a palavra “lagarta”. Nos anos 60, se alguém visse uma lagarta e xingasse com o nome que incluía o caracter “”, não acordava mais para ver a luz do dia.


Nem as crianças são poupadas do regime, afinal, o que seria de um país que a própria população fala que o presidente está acima do peso!?